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 No Divã com Freud

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Hélia Cannizzaro



Mensagens : 1065
Data de inscrição : 23/06/2013

MensagemAssunto: No Divã com Freud   Sab Abr 11, 2015 11:47 pm

ESSE TEXTO ABAIXO FOI ESCRITO HOJE POR SOLICITAÇÃO
DE DRs. DO DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA. Numa série de estudos.

Carta para Sigmund Freud
(Inspirado em Luís Cláudio Figueiredo – LIVRO: Elementos para a Clínica Contemporânea)

Caminho separando meu corpo da mente e deságuo em linguagem para que o analista possa me ver em fácies e me libertar dos recalcamentos, para que os afetos em posição ambígua partam de mim em definitivo. Será mesmo possível? Vê-se mesmo em Figueiredo que a humanidade se perdeu onde a cultura é Ordem e que um dos Caos é a própria Natureza (?). A Natureza não é tão-somente caos, a Natureza se ordena (deixa de ser randômica ou ao acaso) na Energia Livre (G) que é Vida Motriz, e na Entalpia (H) que nos aquece e que se afasta, talvez, e desejosamente, do apocalipse Bíblico. A Natureza dos homens, esta, sim, é entrópica (S), esta sim é o próprio caos. Andando pela história da humanidade, entre Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Pós-Modernidade – Latour foi o melhor que definiu tudo isso: “jamais fomos modernos”. Em Figueiredo, a Idade Moderna está exposta ao traumático e às dissociações. Digo eu, que o bem se confunde com o mal, a nascente com a corredeira, o instrumento de sopro com o instrumento de corda. Tudo incompatível gerando cisões (clivagens) e recalcamentos. Quando dizemos, antes de ler Figueiredo, “fulano de tal é recalcado”, estamos falando de nós mesmos. Freud viu uma crosta na vesícula biliar, certamente porque a vesícula tendo ácido glicocólico e taurocólico (que são amargos) e que se misturam ao pegajoso tecido adiposo (gorduroso), sugeriu que retiremos esta crosta mesmo sofrendo dor. Essa dor nos liberta de sermos falso self e, pronta para ser depositada na lixeira, seremos true self para nós mesmos e para aqueles que nos rodeiam. A existência do trauma deve ser aceita como tal, porque dentro do córtex cerebral pensante e dentro do sistema límbico memórico, possibilita uma chance de transformação. Façamos o caminho, inconsciente para o consciente, eis a questão. O episódio traumatizante desautorizado não impõe transformação. Desde tenra idade, o negócio é sobreviver, mesmo diante dos traumas, e isto até para o bebê, que apesar dos primeiros recalques, com seus corpos estranhos, quer inconscientemente sobreviver. Lá se vão os objetos maus entre solidão materna, mamadeira quente, depois bomba atômica, depois vergonha da nudez com fimose. Que Deus me livre da desintegração regressiva e da despersonalização, e por ser risco a todos holograficamente, não é privilégio só dos psicóticos. Já devem existir, por certo, neuróticos desintegrados em estado de putrefação. É preciso, com coragem, suportar as cargas tóxicas, medir o índice ambiental radioativo e correr léguas daquele lugar. Deve haver ali uma alien hand ou mão alheia, que deve ser da Terra ou do Além, pois uma mão é minha e outra não. O analista mais que competente faz comigo uma soma de dissociação, somos dois a encenar (enactment) uma peça teatral que tem um fim, porque chega a hora do analista assumir seu próprio DNA psíquico. Saio também do cenário, do consultório, e caminho agora para outra peça teatral que é a sociedade. Em poucas palavras, o analista quer “fazer sentido”, “quer tomar o inconsciente consciente”, e quer “fazer do Isso Eu”. O meu trauma sempre tem que ter sentido, é preciso romper as vias de trânsito e unir estradas paralelas e incomunicáveis. Não sei se concordo ou não com Merleau-Ponty quando fala da existência mais resignada, ou seja, a dialética sem síntese. A resignação nos enfraquece e me fala que a sujeira deve ser mantida; a saúde desacreditada; ou o amor impossível. E a dialética jamais terá síntese, os opostos filosóficos são próximos ou impostos, mas a terra e a energia da luz ao quadrado (onde me encaminho no futuro) jamais pode se dar ao luxo de ser reducionista (síntese). Gosto muito quando Figueiredo diz que “não existe mesmo universalidade invulnerável”. Talvez a metapsicologia seja igual à metafísica – que é matéria subterrânea e jamais será palpável. O homem está restrito à Terra, e ponto final. E por isso, Fairbain após Freud, afirmou que estamos marcados pela experiência do sofrimento. O "prazer" é um objeto confiável, mas sempre assaltado pelos maus objetos. Que pena! Fairbain poderia nos ter poupado quando afirmou que o universo não tende para morte entrópica, que é a pulsão de morte de Freud. Se se ler as Leis da Ciência Termodinâmica que fez de Einstein o precursor do satélite, dos celulares, do micro-ondas, etc., vê-se que a morte entrópica (S) é, sim, possível. O acaso (= randômico, bagunça) é bem mais frequente que a estabilidade. Nenhum analista viu um suicídio num paciente com pulsão de morte? Claro, que sim. E os extremos positivos que são também mortíferos. Diz a canção: “Tudo azul, Adão e Eva no paraíso !”Há mesmo um individualismo esquizoide entre nós nesta pós-modernidade, onde cada um na sua e nada entre nós. Deu para entender que a histeria é a primeira estação e deste sofrimento surge a algazarra e a teatralidade (enactment). Nada mais sabemos, pelas ruas por onde andamos, se aquele que fala, fala como ele, ou fala teatro como outro personagem. Ou será que ali também somos Fellini? Tá por fora (Acting out) abrigar em nós corpos estranhos que nos infectam, nos adoecem, e nos faz assistir peças, às vezes, piegas ou mesmo deploráveis. Não me apraz mais ação de terrorismo interno, que esperem Ego libidinais para endoidar com promessas de satisfação plena. Dizem: já conquistei meu amor periférico, meus livros, meu palco, minhas partituras, meus rubis e esmeraldas, e minhas flores prediletas. Lamento por Verleugnung, esse vai desistir mesmo e eu não posso fazer nada, só os analistas e olhe lá !. Ele não quer sobrevivência, não quer realidade ou escolher a que melhor lhe apraz, não quer percepção, não interessa fazer associações, não se impacta ao objeto seja Van Gogh, Julia Roberts, Monet, Enéas, Lenine, Villa Lobos, ou Pixinguinha, e otariamente é um narciso. É uma tese sem conclusão. Será que existe mesmo gente assim? Coitado dos analistas. O que ele quer é alguém idêntico, e o analista tem que fazer esse papel em sua contra-transferência. Depois vem o borderline que tem medo de ser abandonado e/ou invadido, num paradoxal padrão oscilatório (pendular). Esses sempre se sentem eficazes, mas quando é “tudo bem” não é merecedor e quando é “tudo mau”, uma pirâmide de Quéops se soergue em sua cabeça em busca desesperada do “tudo bem”. Não seria melhor um Psiquiatra para eles? A crosta de sua vesícula, a de Freud, não está apenas na parte externa denominada histologicamente de adventícia, quando presa ao fígado, e camada serosa quando livre na cavidade abdominal. Mas a crosta se infiltra por toda a parede da vesícula, entre músculo liso, lâmina própria perivascular e mucosa pregueada com epitélio cilíndrico simples. Não dá mais como retirar uma crosta tão profunda. Acho que o analista sofre. Será? O segredo de quase tudo, pois não existe tudo, é construir espaços para o prazer de brincar, como afirma Figueiredo. Não fazer sabotagem ao Prazer e não ser um “Estraga-Prazer”. Talvez teria a chance de deitar no divã com Freud, tenho a maior curiosidade. O que diria do meu setting? O que faria? Não importa, amanhã de manhã o próprio Sigmund Freud chegará em minha casa, irei ao aeroporto busca-lo (ele não gosta dessas pompas, me falou ontem ao telefone), e irei de imediato pergunta-lo esta razão do divã, que não me inquieta, mas justo agora passou a me inquietar. Depois de Freud certamente perguntarão: com ele foi divã ou foi cadeira ou foi um conto? Eu direi: Depois eu conto. A verdade é que depois da consulta com Freud, cansei de encenações e me libertei (numa única consulta com ele) da minha "alma assassina" (soul murder). Agradeço muito a Figueiredo que me deu a grande oportunidade de me deitar no divã com Freud. Como num “passe”, parei de dizer “Ainda-Não”, e parto para o mundo iluminista livre dos recalques tão bem expressos no Caminho de Swann de Marcel Proust e que sempre deságua na Terra e os Devaneios da Vontade. E foi, assim, um talking cure (levando à cura) e um life giver (para dar vida).
Hélia Cannizzaro



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Vitor tadeu



Mensagens : 5
Data de inscrição : 21/03/2015

MensagemAssunto: Re: No Divã com Freud   Sab Maio 09, 2015 10:16 pm

"Os desinformados parentes de nossos pacientes, que se impressionam com coisas visíveis e tangíveis - preferivelmente como ações tais como aquelas vistas no cinema-, jamais deixam de expressar suas dúvidas quanto a saber se algo não pode ser feito pela doença, que não seja simplesmente falar. Essa, naturalmente, é uma linha de pensamento ao mesmo tempo insensata é incoerente. Essas são as mesmas pessoas que se mostram assim tão seguras de que os pacientes estão 'simplesmente imaginando' seus sintomas. As palavras, originalmente, eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu antigo poder mágico. Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero, por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos, por palavras o orador conquista seus ouvintes pra si e influencia o julgamento e as decisões deles. Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, o meio de mútua influência entre os homens. Assim, não depreciaremos o uso das palavras na psicoterapia, e nos agradará ouvir as palavras trocadas entre o analista e seu paciente".
Sigmund Freud.

Esse foi um texto do volume 15 de Freud. Ele nos revela o poder das palavras sobre os homens e demonstra, sobre tudo, um dos pontos mais importantes do trabalho do analista, isto é, a compreensão das palavras.
Isso por que, são através delas que o analista embarca no inconsciente do paciente, seja por parapraxias ou por relatos de sonhos ou vida cotidiana, são as palavras as encarregadas da doença e da cura.
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